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Em abril do distante ano de 1966 a revista americana Time chegou às bancas com uma emblemática pergunta: "Deus está morto?" A resposta veio em forma de dezenas de milhares de cancelamentos de assinatura, críticas em outros meios de comunicação e discursos inflamados no Congresso americano. Passados mais de 40 anos da capa polêmica, possivelmente a resposta é "não". Há exemplos para todos os gostos, a começar pelo terrorismo muçulmano, que transformou a religião em ideologia. O Irã, um país em que religiosos sobrepõem seus valores aos dos cidadãos, é um regime teológico. A candidata derrotada à vice-presidência dos Estados Unidos, Sarah Palin, foi saudada como alguém capaz de atrair votos de setores evangélicos mais ortodoxos para o Partido Republicano, objetivo distante do cabeça da chapa, o senador John McCain. A proliferação e o crescimento das igrejas evangélicas no Brasil é uma realidade nas últimas décadas. Enfim, é fácil ilustrar a força da religião no mundo contemporâneo.
É contra a crescente influência religiosa em temas considerados laicos e mundanos que se ergueu o movimento de ateus britânicos e americanos, tema da reportagem de capa da Revista da Semana. Com anúncios em ônibus, entre outras ações, os ateus perguntavam à população se era mesmo preciso acreditar em um deus. E provocavam: talvez a resposta esteja em você e em suas ações. O jornalista e polemista inglês Christopher Hitchens, autor de Deus Não é Grande, e o biólogo Richard Dawkins, autor de Deus, um Delírio, são a linha de frente desse pensamento militante ateu. Para Hitchens a razão humana é suficiente para criar um sistema ético que dispense uma ética transcendental.
Não se trata, que fique claro, de um libelo contra as religiões. Acreditar ou não em Deus é decisão individual e o respeito às religiões (todas as religiões) é esteio da democracia. Até mesmo os ateus, ao se tornarem ortodoxos, estão de certa forma agindo como crentes. O que se defende é que, na complexidade da vida humana, exista espaço e tempo para todas as manifestações – e que a religião tenha seu lugar nesse cenário. A ética religiosa, a começar pelos Dez Mandamentos católicos, é uma poderosa ferramenta de nosso comportamento. Os ateus militantes se insurgem não contra o direito individual de crer, de ter fé. Combatem o uso da religião como instrumentos de valores totalitários na vida pública.
E o Brasil nesse contexto é um pesadelo real. É infame o silêncio sepulcral da mídia quanto ao fenômeno evangélico. Não estou me referindo à crença do sujeito, como bem disse o texto, se ele quiser se devotar a um estilo de vida pautado nos escritos do anti-semita Lutero, o que podemos fazer? O que amarga é o uso da fé para o enriquecimento de uns poucos. O que desgraça é a ignorância sendo usada para semear uma tradição absolutamente fora de tempo. Quando estudei em um colégio evangélico aprendi preconceitos monstruosos. Um decênio ouvindo como os gays irão queimar no mármore do inferno. Éramos crianças, e ouvíamos que Buda apodrece assim como Maomé. Os ateus? Estes merecem (sic) o inferno, por usarem a razão contra a religião (obscurantismo). O mínimo que devemos fazer é educar essas mesmas pessoas que são ludibriadas por pastores e padrecos. Afinal, quem hoje conhece a história da Ustashas? 24/12/2008