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O cinema brasileiro muitas vezes erra quando mostra o pedaço pobre do país
A estética das favelas não é novidade no cinema brasileiro. Apareceu em 1962, em Cinco Vezes Favela, e ganhou fama internacional com Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, definido como "uma exuberante crônica do crime nas favelas do Rio de Janeiro" pelo New York Times. Depois vieram Tropa de Elite, premiado com o Urso de Ouro em Berlim, e Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas (2008), "crônica social semelhante à nossa tradição cultural", escreveu Cacá Diegues na Folha de S.Paulo.
O tema volta a ganhar força com Última Parada 174, de Bruno Barreto, indicado pelo Brasil a tentar a sorte no Oscar em 2009. Esse neo-realismo no cinema brasileiro não é tão realista assim. O jornalista inglês David Tryhorn, ex-correspondente no Rio de Janeiro do Guardian britânico, mostra o que há de verdade e de mentira nas favelas retratadas pelos filmes brasileiros:
Elenco. Desde Cidade de Deus há uma tendência crescente a usar atores desconhecidos para dar um toque realista ao elenco.
Locações. Linha de Passe foi filmado em uma São Paulo retratada como uma vasta selva de pedra onde chove o tempo todo e não há vistas pitorescas. Um pouco exagerado, talvez, mas nem tanto para quem já passou uns dias na cidade.
Pais. A ausência da figura paterna nas famílias une esses filmes. Pesquisas demográficas indicam, sim, que a maioria dos jovens que entram para o crime vêm de família separada.
Crime. Quase todo filme brasileiro tem sua cota de jovem-com-cara-de-criança armado. Não é retrato totalmente irreal do Brasil, o quarto país com mais assassinatos entre os maiores do mundo.
Emprego. Só Linha de Passe mostra possibilidades de emprego não ligadas ao crime organizado.
Mulheres. Geralmente centrado em homens, os filmes mostram donas-de-casa ou mulheres de traficantes. O cinema-favela ainda está em dívida com personagens femininos.
Religiões. Em geral são retratadas as evangélicas. O Brasil ainda é o país com mais católicos do mundo, mas hoje 15% dos fiéis vão a cultos evangélicos.
Veredicto. A violência estilizada talvez seja um pouco exagerada. Para um retrato mais autêntico das favelas, assista à série de TV Cidade dos Homens.