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Como ganhar dinheiro com o grau de investimento

13/05/2008 1:51
Foto: NELSON ALMEIDA/AFP
Bolsa de Valores de São Paulo: haverá enxurrada de dólares

Atestado de confiabilidade atrairá investimentos internacionais e permitirá também lucros no Brasil

Os fatos

A agência americana de classificação de risco Standard & Poor’s conferiu ao Brasil o título de país seguro para se investir ao elevar a nota brasileira para o patamar de investment grade (ou grau de investimento). Até agora o país carregava o título de “grau especulativo”. Era o único dos chamados Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) que ainda não recebera o atestado de confiança. A avaliação funciona como um selo de qualidade dado aos países considerados economicamente estáveis e capazes de honrar todos os compromissos financeiros. “O Brasil foi declarado um país sério”, disse o presidente Lula logo depois de receber a notícia, por telefone, do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, na quarta-feira, 30 de abril.

O que a nota significa? “É um reconhecimento do esforço de estabilização econômica dos últimos dez anos”, comentou a jornalista Lúcia Hipólito na rádio CBN.

O que influenciou a decisão da S&P? A maturidade das instituições e do sistema político, a redução da dívida externa (clique aqui para ver o quadro complementar) e o sucesso da política monetária, calcada no câmbio flutuante, controle da inflação e independência do Banco Central, esclareceu a agência em nota.

Qual a vantagem de ser grau de investimento? O Brasil passa a ter acesso a um mercado potencial de US$ 10 trilhões em recursos dos fundos de pensão americanos, japoneses e europeus que até então não podiam investir no país. Esse dinheiro entrará por meio de investimentos, tanto no mercado acionário como na economia real. A possível enxurrada de dólares tem o lado bom: estimula a queda de preços por causa da importação de produtos mais baratos. Mas há um risco: freio nas exportações, já que os produtos brasileiros ficam mais caros lá fora.

O grau de investimento fortalece a economia brasileira e permite lucros. A saber:

Bolsa de Valores. Como a procura por ações de empresas brasileiras crescerá, os papéis tendem a se valorizar. No dia do aumento da nota, o Ibovespa (o principal indicador da Bovespa) subiu 6, 4%. A tendência de alta continuou nos dias seguintes, com a Bolsa batendo sucessivos recordes. “O momento é para aplicar em ações de empresas voltadas para o mercado interno, como as construtoras, de alimentos, bebidas, varejo, além dos bancos”, indica O Globo.

Renda Fixa. A entrada de recursos no país tende a reduzir os juros no longo prazo. Mas, como a inflação ainda é uma preocupação, o Banco Central deve manter a tendência de alta da taxa Selic, o que ajuda os investimentos em renda fixa no curto e médio prazos.

Dólar. A tendência é de desvalorização. Comprá-lo apenas se for para usar logo, em viagem de férias.

As opiniões

A elevação da nota brasileira ao patamar de país seguro para os investidores é positiva, mas não significa que repentinamente o Brasil se livrou de todos os problemas econômicos. “A melhora da nota é boa, mas ainda persistem as distorções em juros, tributos e na dívida pública”, publicou em editorial a Folha de S. Paulo. “Ainda há substanciais obstáculos para fazer negócios no Brasil, tanto que, nas classificações internacionais de competitividade e facilidade para fazer negócios, o país continua mal colocado”, escreveu o ex-diretor do Banco Central Ilan Goldfajn na revista Veja.

“Poderia ter acontecido antes, quando as agências tinham um pouco mais de credibilidade”, afirmou o ex-ministro da Fazenda Delfim Netto a O Globo. A Standard & Poor’s – assim como as outras duas mais respeitadas, a Fitch e a Moody’s – foi incapaz de prever o risco de recessão que assola os Estados Unidos.

Se Delfim acha que demorou, há quem estranhe o grau de investimento ter chegado em plena crise global. O diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Colúmbia, Thomas Trebat, admitiu perplexidade com a decisão, “pois estamos no meio de uma virada de ciclo econômico”, disse a O Estado de S. Paulo. “Os avanços nas contas externas do Brasil mencionados pela agência se devem, basicamente, ao ambiente externo favorável. Esse ambiente está mudando e ainda não sabemos como o país reagirá. ” Para Trebat “o Brasil precisa fazer reformas importantes, como a tributária, a trabalhista e a do sistema regulatório, e até agora não avançou em nenhuma delas”.

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, prefere não polemizar em relação ao tempo da conquista. “Boa notícia tem sempre que ser comemorada e se é boa veio na hora certa”, disse em conferência telefônica a um grupo de jornalistas. “Esse grau de investimento é muito significativo porque foi concedido em um momento de incerteza e instabilidade da economia internacional”, disse. Indica, segundo Meirelles, o aumento da resistência da economia brasileira aos choques externos.

Cabe lembrar, para citar um caso da América do Sul: o Chile tem o grau chamado de “A+”, superior portanto ao do Brasil (BBB-) em termos de confiança econômica. O caminho é longo. “O Brasil ainda está distante de alcançar o almejado AAA (nota máxima atribuída pela S&P, na qual estão Estados Unidos e Alemanha, por exemplo, com total capacidade de pagar suas dúvidas)”, lembrou o britânico Financial Times. “Mas agora pelo menos já está na lista dos países seguros, o que o ajudará a atrair bilhões em investimentos”, diz o espanhol El País. Há quem aponte o anúncio como aceno simbólico, desnecessário porque o mercado respira sem precisar de rótulos e selos. John Authers, também no Financial Times, diz que a avaliação não deveria ter tanto peso assim. “Os investidores do Brasil não precisaram de muita ajuda ultimamente. Desde que o presidente Lula foi eleito, no final de 2002, o índice Bovespa ganhou 1 600% em dólares.”

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