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Que fim levou o ano-síntese dos sonhos e das decepções de toda uma geração
Há 20 anos o jornalista Zuenir Ventura lançou o livro 1968 –O Ano Que Não Terminou. Agora, 20 anos depois, ele publica 1968 – O Que Fizemos de Nós (Editora Planeta). É uma tentativa de pôr um ponto de interrogação naquele primeiro trabalho – enfim, 1968 já era? É jogo empatado.
Acham que SIM
“O ano de 1968 terminou, terminou muitas vezes”, diz o deputado federal Fernando Gabeira (PV-RJ), o “mais bem-sucedido remanescente de 68”, segundo Zuenir Ventura. Para Gabeira, “se você comparar tudo que se imaginava e se queria com tudo que se conseguiu, vê que o mecanismo de fantasia era maior do que aquilo que as possibilidades alcançaram”. O ministro Franklin Martins, da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, parceiro de Gabeira no seqüestro do embaixador americano Charles Elbrick, em 1969, diz que “68 terminou em 68, mais precisamente no dia 13 de dezembro, com a edição do AI-5, que fecha um ciclo, um período de grandes mobilizações da classe média, basicamente estudantis, e também operárias, que levaram ao limite a ditadura”.
Se terminou, então nada ficou? “O melhor foi as meninas de família passarem a poder transar com o namorado, em muitos casos dentro da casa dos pais”, diz Caetano Veloso, em entrevista para o livro de Zuenir. Saudade de 1968? “Só tenho saudade de ser jovem.”
Zuenir Ventura faz uma lista do que terminou com 1968:
Comunismo. Embora não tenha sido uma invenção brasileira, foi a grande ameaça que os militares usaram para amedrontar a população em 1964 e 1968.
Transar sem camisinha. Os anos 60 tornaram o preservativo inútil anacronismo. Graças às pílulas anticoncepcionais, a geração de 1968 foi das primeiras no século 20 a experimentar prazer sexual sem ameaça de gravidez. Nos anos 80 a aids acabou com a farra.
Os filmes de Godard. Fora os freqüentadores de festivais e cineclubes, quem entraria hoje numa fila para assistir a um filme de Jean-Luc Godard?
As idéias de Mao, Marx e Marcuse. Dos três, atualmente, o menos procurado no Google é o professor Herbert Marcuse, de 70 anos, com 1 150 000 acessos. O campeão é Marx, com 33 200 000. Mao tem 6 220 000. Nenhum se compara a outro agitador famoso, recordista com 179 milhões de citações: Jesus Cristo.
Acham que NÃO
As efemérides parecem indicar a permanência de 1968. “Cada aniversário redondo de 1968 é comemorado com intensidade maior do que o anterior”, disse a O Globo o jornalista Ernesto Soto, co-autor do livro 1968 – Eles Só Queriam Mudar o Mundo, com Regina Zappa. “A importância do ano cresce, em vez de diminuir”. Ano premonitório, Soto diz que as maiores conquistas daquele tempo “não foram estritamente políticas, mas dizem respeito à cultura e ao comportamento”. Para o intelectual anglo-paquistanês Tariq Ali, “nem quem diz que 1968 foi uma perda de tempo consegue esquecê-lo”. Ele se refere ao presidente Nicolas Sarkozy, para quem sua vitória, ano passado, teria sido o prego final no caixão de 1968. “Acho que não”, resume Ali.
“Não se pode dizer que Daniel Cohn-Bendit, que liderou o movimento estudantil francês e hoje lidera o movimento verde, tenha se distanciado dos ideais de 1968, porque a causa ecológica foi uma das muitas que foram defendidas naquele ano”, escreve o cientista político Sergio Paulo Rouanet em artigo para o Jornal do Brasil.
Zuenir Ventura faz uma lista do que não terminou em 1968:
Capitalismo. Era mais forte do que a vã ilusão da época pensava. Bem que Marcuse advertiu: “Combatemos contra uma sociedade que funciona extraordinariamente bem”.
Pílula anticoncepcional. Desenvolvida em 1957, licenciada em 1960, chegou às universidades em 1968. Hoje podem ser compradas sem receita médica e são distribuídas gratuitamente por muitos governos. A elas, mais do que às idéias, se deve a revolução sexual.
Minissaia. Personagens do showbizz, como Britney Spears, Paris Hilton, Juliana Paes, Luana Piovani, Adriane Galisteu, a usam também para mostrar a calcinha.
Sonho. Embora John Lennon, Bob Dylan e Gilberto Gil tenham decretado seu fim (“Quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou”), é licença poética, ele não acabou. Sonho é desejo, ensinou Freud. Não confundir com pesadelo. Algumas coisas que pareciam sonho em 1968, como as drogas, eram pesadelo.