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Polêmica

O etanol é mesmo o vilão do planeta?

28/04/2008 14:36
Foto: KIKO FERRITE
Usina de etanol de cana-de-açúcar: sem subsídios do governo

Biocombustível é acusado de causar inflação de alimentos e danos ao meio ambiente

Com a alta dos preços dos alimentos em todo o mundo, o biocombustível se tornou o grande vilão da história. Há dois modelos de produção: o etanol de milho, americano, e o etanol de cana-de-açúcar, feito no Brasil

Acham que SIM

Um quinto do milho produzido nos Estados Unidos é destinado à produção de combustível. Graças a subsídios do governo, empenhado em incentivar o etanol como fonte de energia alternativa, fazendeiros diminuíram a produção de outros insumos, principalmente de soja – o que resultou numa queda na oferta de óleo de cozinha, informa o New York Times. O Grupo Intergovernamental sobre Grãos da Organização das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura (FAO) alerta: se a produção de biocombustível americano (metade de tudo que é produzido no mundo) seguir nos mesmos níveis, o preço dos alimentos aumentará entre 10% e 15% nos próximos anos. O motivo: escassez de comida, com a substituição de terra para alimentos por terra para energia.

“Tenho me perguntado o que é mais importante: dirigir ou comer”, argumentou Abdullah bin Hamad al-Attiyah, ministro da Energia do Catar, em entrevista à agência Bloomberg. Mais radical, Rafael Ramírez, ministro da Energia e Petróleo da Venezuela, acusou de “criminosos” os que usam plantações para produzir combustível.

Há, para além das questões econômicas, estragos ambientais. Grandes porções da floresta Amazônica têm sido devastadas para o plantio de cana-de-açúcar destinada à produção de biocombustíveis, acusou reportagem da revista Time. Há contestação.

Trata-se, a rigor, de um embate científico que já dura anos – e quase sempre os resultados apontam para danos ao ambiente. Um estudo publicado pela Universidade Stanford concluiu que “o etanol oferece um risco igual ou maior à saúde pública que a gasolina”. De acordo com o cientista atmosférico Mark Jacobson, responsável pela pesquisa, a queima do biocombustível produz mais ozônio nocivo ao pulmão que a gasolina. Além disso, os produtores de milho usam fertilizantes à base de nitrogênio. Quando chove, a água leva o nitrogênio para os rios, o que acaba com a vida aquática.

Acham que NÃO

Na contramão dos que apontam os biocombustíveis como os responsáveis pela alta no preço dos alimentos, o presidente Lula argumenta que o etanol de cana-de-açúcar pode ser a solução para a pobreza. “Dá para ver quantos benefícios podemos levar para o Haiti se países ricos e emergentes como o Brasil puderem fazer parcerias e investir para produzir lá”, disse. Contra as acusações de que o etanol rouba espaço antes destinado à produção de alimentos ou – no caso do Brasil – de florestas nativas, esgrime-se argumento ancorado em estudo do IBGE. Nenhuma das situações se aplica ao país, argumenta o analista Fabiano Tito Rosa, da Scot Consultoria, em entrevista à Folha de S. Paulo. “A cana-de-açúcar tem avançado sobre áreas de pastagem degradadas”, resume.

No início de abril o Grupo Intergovernamental sobre Grãos da Organização das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura (FAO) disse que o aumento da produção de biocombustíveis ameaçaria a de alimentos para as camadas mais pobres da América Latina. O secretário do grupo, Abdolreza Abbassian, em entrevista a O Estado de S. Paulo, fez questão de pôr o Brasil em patamar diferente. “O Brasil tem uma história de 30 anos de produção sustentável de álcool de cana-de-açúcar”, afirmou. “Os Estados Unidos, sim, tiveram de reduzir sua produção de soja e trigo na mesma proporção em que aumentaram a de milho para combustível. ”

Reportagem publicada na Rolling Stone americana, assinada pelo jornalista especializado em energia Jeff Goodell, põe o milho americano no canto do ringue. Nos Estados Unidos gasta-se um barril de petróleo para produzir 1, 3 barril de etanol, de modo a girar máquinas e veículos de transporte. No Brasil produz-se, com um barril de óleo, oito de etanol à base de cana-de-açúcar. Os Estados Unidos têm 37, 5 milhões de hectares plantados para produzir 18 bilhões de litros de etanol de milho ao ano, às custas de US$ 6 bilhões de subsídios. Aqui utiliza-se área cinco vezes menor para produzir a mesma quantia, sem um centavo sequer de ajuda do Estado.

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